domingo

Sobre o fim das coisas

Fim é destino de todas as coisas vivas e não vivas também. O problema maior é definir quando algo acabou, ou melhor, é perceber que não existe mais recuperação.

Saber que tudo acaba é reconfortante e em alguns casos deprimente. O fim não é questão de “se”, mas invariavelmente de “quando”; pode-se estender a vida útil de algo (e quando digo “algo” me refiro desde um relacionamento a um objeto) às vezes em mais alguns momentos e ainda assim ele terá um fim.
Mas o tema específico deste post é sobre o fim de um sentimento. Aliás, o fim de tudo que represente qualquer potencialidade para a dor.

Sei que é inerente de todo ser humano se apegar a última esperança, a um milagre e a qualquer força superior que seja capaz de solucionar todos os problemas. Até ai nenhum problema, ilusões ajudam a viver um pouco melhor. Mas, e quando acreditamos tanto nesse milagre que ele simplesmente acontece só para nós?
Quando amamos (e esse post é sobre amor também, principalmente) ficamos imersos em tanta ilusão que tudo é distorcido e o fim torna-se algo inconcebível. Quando não existe a perspectiva de um final sobra prepotência, pois, terá tempo para recomeçar sempre.
Minimizar grandes faltas e maximizar irrisórios feitos são algo característico de alguém que quer protelar o fim, certamente é um amante (nesse contexto, um “amante” é qualquer um que ama). 

Mas tudo acaba, e esse “tudo” engloba qualquer coisa que existe: as pessoas, o sol, o amor, a vida, etc. E quando demora a acabar pensar que é infinito e/ou imortal é um grande erro. Disso surge à dor, tudo que é amado no seu fim  causa uma enorme dor, e essa sim pode ser infinita.

Paulo Marcos Barros

Sobre o Amor e outras amenidades


Fernando Pessoa escreveu que cartas de amor são ridículas assim como as pessoas que não as escreve.
Escrever é o ato de qualquer pessoa que está amando, e digo amando no sentido vulgar. Pois as palavras escritas, diferentemente de uma fotografia, podem eternizar um momento que nunca existiu, podem expressar nossos desejos semoventes mais íntimos.
O que aconteceu e a vontade do que aconteça são intrinsecamente indissolúveis e por isso cartas de amor são ridículas. Sucumbir à tentação da poesia ao invés de retratar a dor real é algo sobre-humano, pois é nossa característica se prender a ilusões infames.
E por ser a realidade menos densa que a fantasia (matei Tim Burton agora, desculpa) está é obrigada, cientificamente, a imergir. Mas nem sempre isso é suportável e quando é não passa sem deixar profundas fissuras.
Porque o ente é terrivelmente sensível e insuportavelmente contingente. Necessita encontrar, fora se si, sua própria razão de ser. É nesse processo que sofremos, pois tudo aquilo que é inconstante causa dor.
Amar pode nos levar a beira da glória (The Edge of Glory da Lady Gaga na minha cabeça) ou ,só para cita outra música,  a à entrada do inferno (Highway To Hell do AC/DC). Não me refiro a uma dor poética que pode ser encontrada nos álbuns da cantora inglesa Adele ou nos livros de Goethe, de fato não.
Uma dor real, às vezes física, que pode ser mensuradas nos alcoólatras, nas anoréxicas ou nos obesos. Toda frustração é vem de algum amor, que nem sempre é direcionando a uma pessoa.
Alguns perseguem a beleza de Adônis, Perséfone e de Jacinto e outros buscam a intelectualidade de Sartre e Platão ou e ainda a complexidade imaginaria de Schopenhauer e Rimbaud. Enfim, todos querem algo que está fora de alcance.
O nome disso é amor.

Paulo Marcos Barros

sábado

Frio, solidão e indicações

Ah se a solidão fosse assim tão poética!
A atmosfera deprimente que está sobre essa cidade me fez escrever esse post. O frio tem essa capacidade: de nos deixar saudosos, fleumáticos e tristes. Esse texto fala sobre coisas para se fazer quando está se sentindo sozinho ou carente. E não, não envolve álcool, chocolate ou hibernação.

Minhas primeiras recomendações são sobre filmes. Cinema sempre foi um ótimo passa tempo, mas nesse caso será um remédio contra a solidão:

    Is It Just Me? – a trajetória solitária de um escritor em busca do homem dos seus sonhos. O filme deixa um dor de cotovelo no fim, mas sente-se pena do protagonista antes disso.

     Sex and the City 1 e 2 - quarto amigas, New York e muito luxo: combinação perigosa. Acho que todo mundo gosta de fazer umas compras na hora da carência, esse filme consola bastante.

     Mata-me de prazer - esse é para quem sonha em encontrar o amor caminhando na rua numa manhã de inverno. Uma mistura de sexo selvagem, amor à primeira vista e perigo, mas no fim é só mais filme americano.

     Grandes Esperanças – para aqueles que, como eu, não conseguem enterrar o passado de forma definitiva. O filme trata de um amor de infância que nunca foi esquecido e volta de forma tempestuosa.

     Release – para curar uma dor nada melhor que ver alguém sofrendo mais do que nós (eu sei, é muito sadismo). Um guarda penitenciário, um detendo e remorsos fazem desse filme uma ótima terapia recomendada pelo Dr. Marquês de Sade.

Música é um aspecto importante, de fato. Nunca compreendi bem o motivo pelo qual o som exerce tanto poder sobre nós, mas enfim. Existem alguns momentos que a música tem papel fundamental, uma ótima trilha sonora faz grandes mudanças m qualquer ambiente ou pessoa:

     21 da Adele – esse álbum traduz muitos sentimentos comuns com uma sonoridade incrível, nada parece tão triste como realmente o é.

     Blue de Joni Mitchell – lançado em 1971, contem músicas de transgressão com um tom de melancolia típico do rock da época.

     O de Damien Rice – existe uma linha tênue entre a vida e a tristeza nesse álbum de 2003. Ótimo para atenuar dores.

Ler sempre é uma boa forma de escapar da realidade. Você pode imaginar-se no lugar do personagem, num ambiente totalmente exótico e fazendo as escolhas certas para não sofrer:

     Livros de Mágoas de Florbela Espanca – poemas que trazem toda a dor interior para o papel. Mas Florbela se vinca da dor, faz pouco dela, descrevia-a de forma fria e insensível. A dor é meramente um estado de tempo.

     As procissões de Gibran Khalil Gibran – predomina uma concepção bilateral da vida: o bem e o mal, o campo e a cidade, o pobre e o rico, a sombra e a luz. O primeiro termo da oposição representa o bem, o segundo termo o mal. E o bem e mal nunca se conciliam. Escolha seu lado

    Lolita de Vladimir Nabokov – um romance erótico noiar bem clássico. Melhora muito o humor ler coisas eróticas, é serio. São desprovidas de sentimentos logo não se precisa fazer julgamentos éticos. Tudo fica simples.

     Manual do mané de Arthur Dapieve (org.) – trás todos os motivos pelos quais sua vida afetiva anda descarrilhada (achou que era macumba? Talvez seja mesmo). “Evento carbonizante” é quando você sabe que ferrou qualquer possibilidade de algo mais, essa e outras pérolas estão nesse livro.

Essa lista, já vai longe. Mas a melhor maneira de sair da solidão ou carência é conhecer novas pessoas (bate-papo do UOL não vale!) e/ou prestando atenção nas conhecidas. Sempre existe alguém para você, talvez não o príncipe de cavalo branco e nem a princesa da Disney, mas alguém simplesmente comum.

Não espere pelo perfeito, e nem que o vento traga-lhe nada mais que poeira aos olhos. Olhe todos com atenção, talvez o amor da sua vida seja sua vizinha, o padeiro, o carinha do ônibus ou mesmo sua melhor amiga.


Curtam Rolling In The Deep da Adele:




Paulo Marcos Barros

sexta-feira

Politização e organização de militância

Isso é política
Um movimento de ondem popular, seja qual for ele, é estruturado basicamente por uma ideologia coesa e com uma finalidade. Mas, mais do que isso um movimento é feito de pessoas que se sintam justamente representados por essa mesma ideologia; pessoas que tenham em comum o desejo de liberdade, de igualdade ou de outra bandeira.

Um grupo de pessoas forma um movimento quando este expressa profunda transformação nos seus valores pessoais, no comportamento, nas formas criativas de se organizarem e de agirem de forma independente.

Joana d'Arc, Sócrates, Fernando Gabeira, Vladimir Herzog e Elke Maravilha, todos eles sofreram algum tipo de repressão por lutar pelo que acreditavam. Uns pelo bem coletivo e outros pela liberdade pessoal. Devemos a esses vultos da historia nosso conceito de democracia. e de liberdade de escolha, entretanto o que ficou de mais importante das ações dessas pessoas foi o exemplo.

Militância
Agir de forma politica, seja motivado por um bem maior ou por questões pessoais, envolve consciência moral e ética e isso nem sempre é fácil. Definir o que violenta você e o que cerceia seus diretos é fácil. Porém participar e/ou organizar uma militância envolve coragem para levantar uma bandeira publicamente, assumindo assim uma posição de agente ativo na sociedade politica.

A organização da militância faz, inconscientemente, todos os ramos da atividade social mesmo os mais aparentemente apolíticos em instrumentos não-declarados de expansão do poder de politização no individuo.

P. S.: Esse artigo foi plublicado simultaneamente em:
E-Salvador
Para ler e pensar

Paulo Marcos Barros



terça-feira

Diferenças socio-raciais na sociedade brasileira: ruptura ou manutenção?

A diferença racial e social  no Brasil é de natureza histórica. Apesar de na últimas décadas ter se falado muito em igualdade e desenvolvimento, na prática, não houve acões substâncias  por parte da governo ou da sociedade, para erradicar essa situação.
Os focos de miséria em grande escala ocorrem nos locais onde se encontra a maioria da população negra. São eles: Norte e Nordeste e periferia do Sudeste; essa característica é causada pela seguinte processo: o desenvolvimento, a distribuição de renda, a oferta de empregos com melhor qualidade ou educação de forma mais contundente não chegam nesses locais mais longínquos, onde por “coincidência”  se encontra a população negra.
Existem mecanismos que impedem a ascensão dos negros; um ótimo exemplo disso é o sistema de cotas raciais para instituições públicas . Enquanto a parte caucasiana da sociedade brasileira  tem ingresso livre e garantido em instituições de educação superior públicas (e até mesmo privadas) os negros tem que se auto declararem como tais para ter acesso a um direito garantido pela Constituição.
Em síntese, na construção de uma nação precisamos de um projeto político para qualificar toda uma sociedade, não um segmento dela. Não pode haver desenvolvimento se antes não ocorrer uma integração intelec-socio-econômica e racial entre os cidadões.

Paulo Marcos Barros

Yukio Mishima: culpa e sensualidade

Mishima posando de São Sebastião
Adoro os escritores e venero os mártires, mas amo os escritores mártires. Aqueles que se sacrificaram pela sua literatura, ou mais extremamente morreram por ela. Quero falar nesse post de ninguém menos que Yukio Mishima, da sua obra.

Mashima é, provavelmente, o escritor japonês mais conhecido dos leitores ocidentais. Foi indicado três vezes para o Prêmio Nobel de Literatura.

Ler Mishima é mergulhar em ambiguidades: ora poético, doloroso e homoerótico e ora decadente, preconceituoso e fascista. Também não podia ser o contrario, afinal ele escreve mais sobre si próprio do que qualquer outra coisa.

Em Confissões de uma máscara, de 1948, Mashima revela tudo sobre si, o que deixa o livro uma semiautobiografia romanesca. Nele, o escritor conta história de um garoto que vive um dilema: não sabe se dá vazão às suas fantasias homossexuais sádicas ou se investe em um amor por uma irmã de um amigo.

Realmente é uma confissão, mas esta não busca a absolvição, sabe que ninguém poderá fazê-lo. Nisso Yukio Mishima é semelhante a Jean Genet, ambos buscam a santidade por meio da degradação e da auto-humilhação. Alias a maneira de morrer de Mishima refletiu as preocupações da sua obra, um suicídio público por seppuku – o ritual de autoevisceração a fim de resgatar a honra.

Cores Proibidas, publicado em 1953, transparece todo o preconceito contra as relações afetivas, o personagem principal Yuichi seduz a todos (homens e mulheres), mas não se entrega ninguém.

Como um pecador Yukio sabe que está pegando, toda sua obra é cheia desse conceito, e também sabe que não poderá se arrepender  do que fez. Em toda sua escrita, há um prazer com uma mistura de culpa e dor que  o equipara a Oscar Wilde.
 
 
Paulo Marcos Barros

quinta-feira

Descorbetas literária de 2010

2010 está no fim, o clima nostálgico no ar. Então chegou a hora de fazer as listas.... de natal? Não, dos melhores e piores do ano.

Minha lista vai ser sobre livros. Minhas melhores descobertas do universo literário, alguns livros são bem antigos e outros recentes.

Não estou fazendo uma lista de melhores, mas sim de boas surpresas. A literatura de qualidade é o mais durável dos bem. As melhores produções, de qualquer tipo, sobrevivem a seus criadores e a cada nova geração de pessoas, por isso ler é sempre reviver uma época passada, compreender a atualidade e acima de tudo criar um futuro.

Durante esse ano li essas e outras boa obras:

O último dia de um condenado (1829) do escritor francês Victor Hugo. Dele já tinha lido os clássicos Notre-Dame de Paris e Os miseráveis. Um condenado a morte narra suas últimas semanas antes da execução. A linguagem e os acontecimentos se desenvolvem de maneira densa e dramática. A aguçada consciência social de Hugo e sua interpretação progressista da literatura tradicional, permite refletir sobre o clima politico do seu tempo.

Sex and the City da jornalista Candace Bushnell. O titulo-proposta desse romance já é muito ousado, mas ousado ainda é o que Bushnell revela sobre Nova York: sim, a cidade tem relação com sexo, assim como o amor tem com o dinheiro. Um relato bem humorado da atmosfera da cidade dos sonhos.

“Sumidouros que sibilam, entram em ebulição e nos sorvem” disse Virginia Woolf sobre Fiódor Dostoiévski, é dele o incrível livro Humilhados e ofendidos (1861). Dois nobres o pai ambicioso e desonesto e seu filho pateta, uma família de classe média e um escritor sem fama compõe os personagens dessa história. O que torna o texto de Fiódor tão irresistivéis é que ele propõe grandes questões, mas nunca toma uma decisão definitiva.

O quase desconhecido, Santiago Nazarian escreveu o drama psicológico Feriado de mim mesmo (2005), que beira a loucura e chega perto da genialidade de Clarice Lispector com representação de personargens por meio do fluxo de consciência (leia mais sobre Nazarian aqui)

O sucesso cinematografico O segredo de Brokeback Mountain que ganhou três Oscars em 2006, 4 Globos de Ouro e 2 MTV Movie Awards foi baseado no conto homónimo de E. Annie Proulx de 1997. O livro que tem uma linguagem simples, conta a historia do relacionamento amoroso entre dois vaqueiros que põe em cheque a imagem de macho do caubói americano.

Amada (1987) livro de Toni Morrison, que ganhou o Premio Pulitzer e o Nobel de Literatura; foi inspirado na historia de um escravo fugido que mata os filhos para não vê-los levados de volta a fazenda. O livro é descrito com uma economia narrativa que sustenta a sua prosa rica e evolutiva.

Jean-Paul Sartre além de ser um gigante da filosofia do século XX é também um romancista incrível. Em A náusea (1943) seus pendores fenomenologicos e existenciais são explorados, no qual ele acompanha as reações do herói dos absurdos e das contingências da vida.

Espero que tenham gostado e se surpreendam também com essas perólas da literatura.

Paulo Marcos Barros